sexta-feira, 21 de junho de 2013

Tinha que ser eu?

Sou requisitada a dizer para as pessoas o que elas devem fazer quando as crianças se beijam na boca.

“O que fazer quando uma menina beija outra menina?” – eu ocupo posição privilegiada para responder isso.

Eu, justo eu!

Por que essa tarefa injusta, que me faz engolir um sapo atrás do outro, quando tenho que ser simpática e cuidadosa para dizer o óbvio?

É um esforço fenomenal não poder gritar aos quatro cantos o quanto o mundo é preconceituoso e careta e hipócrita e limitado e ignorante e não sabe o que é bom.

O que é bom é poder aceitar os convites que te parecem interessantes, é poder experimentar o que se deseja, é poder escolher viver plenamente o curso da própria vida sem se preocupar em ter que explicar o que você é o tempo todo.

O bom é poder estar, sem se prender nas exigências do é. O que você é? O que isso significa?
Significa que estou feliz. Ponto.

“E a menina que beijou a outra na escola? Já expliquei que meninas beijam rapazes... e o que mais devo fazer?”

E se simplesmente disséssemos para ela que a organização da escola, no momento, não tolera beijos na boca e que podemos combinar de que não nos beijaremos na escola? E se a gente pensar que ela pode estar apenas explorando a sua sexualidade sem muito planejamento, apenas interagindo com a pessoa mais próxima e confiável, que no momento era a melhor amiga? E se, de fato, considerarmos que esta criança está começando a exercer sua preferência/condição em termos de sexualidade e está mesmo beijando a colega que ela está afim, o quê qualquer intervenção/preocupação heteronormativa de nossa parte fará de bom a essa criança, se não contribuir para que ela se sinta inadequada?

E tudo isso eu precisei dizer, com calma e tranquilidade.


Tinha que ser eu.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Novo do Caetano


Ouvia o novo disco do Caetano e lembrou-se do texto secreto que ele escrevera para ela, quando o amor ainda se disfarçava de amizade e quando ainda nem sequer se imaginavam amantes. 
Três discos depois, aquele texto parecia tão necessário... Se não por ela, muito menos por ele, mas pelo Caetano.
Na primeira busca, nada. A certeza de tê-lo jogado fora, como sempre é necessário com o que se quer esquecer: joga-se tudo fora, o que se quer e o que não se queria querer esquecer.
Perdeu-se da busca, envolvida na leitura de uma pasta de textos antigos. Ótimos textos do passado. E no meio deles, a Descoberta. Era esse o nome do texto. Que ela só percebeu ter encontrado ao final da leitura, quando uma lágrima escorreu, fingindo não existir.  
Ao que recebe alguns amigos em casa. Cada qual, como cachorro, achando seu lugar no sofá. (O cachorro nunca ocupa um espaço a esmo. Um cachorro nunca está desalinhado com os astros. Seu lugar é sempre aquele em que está).
Conhecem o último do Caetano?
Ninguém conhecia, lançamento recentíssimo. Conversa veio, conversa foi, conversa não veio nem foi para aquela que não conhecia o último do Caetano, frente ao qual, porém, não pôde estar indiferente.
Encantada com o disco, seu olhar atravessando o aqui das conversas, mirava longe.
Aquele que já conhecia o último do Caetano, por sua vez atravessando o aqui das conversas, mirava fundo aquela que mirava longe. Percebeu que estavam juntos no interesse pelo disco, na apreciação de um novo sabor: comunhão.
Para onde ela olhava?
Para lá, onde se encontrariam futura e fatalmente:
O lugar exato, alinhado com todos os astros, lugar-além, dos dois, só. Onde ser amigos é questão de mira e ser amantes é questão de tempo.
Para onde ela olhava?
Para o projeto secreto de escreverem um livro com aquela história maluca, visceral, secreta, um Marília de Dirceu contemporâneo.
Eu quero ser a sua piscina de uvas. Era o nome do livro.
Dia desses a gente estava conversando sobre seu cabelo e uma coisa que você falou que gostava era o timbre que o sol imprime sobre os fios. Resposta à vida, ao calor, à luz, seu cabelo sorri em bronze. Imagino todas as respostas do seu corpo. Pele. Rosto. Que tipo de pergunta pode suscitar seu melhor cheiro? Sua risada mais tocante? Seu olhar mais outro mundo? Que tipo de festa te faz chorar? Qual o caminho do seu inadiável desespero? Sermos um o sol do outro, nossos corpos gostosos como só ficam na praia.
Teve vontade reler e-mails. Ainda tinha uma senha antiga, que vivia sendo trocada para esconder o grande segredo. Conjunção dos astros: internet fora do ar.
Caso do acaso, nosso amor estava escrito nas estrelas.
Com início, meio e fim.


sexta-feira, 12 de abril de 2013

Ainda


De vez em quando eu acesso essa dor. Momentos em que descubro que isso ainda é uma dor.

Ainda?

“Ainda” que vem da esperança de que a dor um dia não seja mais dor.

Mas a vida também é feita de dores que não passam nunca. Dores a se carregar. Um homem com uma dor é muito mais elegante...

Talvez venha daí a elegância da vida: a maturidade que só tem quem carrega dores. Quem soube que fazer escolhas implica em carregar algumas dores. Quem soube que a felicidade verdadeira é carregar as dores que se escolheu carregar – e não aquelas que alguém lhe impôs.

Sim, às vezes as dores são impostas. E com algumas delas temos que conviver. E a tarefa de, ainda, ser elegante. O que tem a ver com resignação, desapego, otimismo. Olhar o lado bom da vida, não é assim?

Papo antigo esse. Qualquer vó diz isso. E o mais sábio da vida é dito por pessoas comuns. Não é assim?

É assim.

Uma mulher com uma dor também é muito mais elegante. 

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Por que eu não pensei nisso antes?


Tem coisas na vida que a gente lê e falam tanto de nós, que queríamos ser o autor daquilo...
Duas frases, ou construções sobre a vida, que gostaria de ter feito, e se não fiz, deve ser porque só agora entendo tão perfeitamente tudo isso:


"A ética é a estética de dentro".

"O amor não existe, só há provas de amor".

Ambas de Pierre Reverdy, poeta francês.



quarta-feira, 18 de julho de 2012

"Tudo no mundo é secreto" / Plano sequência



"No final do ano passado, depois que alguns jornais noticiaram que a editora responsável por esta publicação me havia encomendado um texto sobre o pecado da luxúria, os originais deste livro e o recorte da nota de um dos jornais em questão foram entregues por um desconhecido ao porteiro do edifício onde trabalho, acompanhados de uma bilhete assinado pelas iniciais CLB. Informava que se trata de um relato verídico, no qual apenas a maior parte dos nomes das pessoas citadas foi mudada, e que sua autora é uma mulher de 68 anos, nascida na Bahia e residente no Rio de Janeiro. Autorizava que os publicasse como obra minha, embora preferisse que eu lhes revelasse a verdadeira origem.. 'Não por vaidade', escreveu ela, 'pois até as iniciais abaixo podem ser falsas. Mas porque é irresistível deixar as pessoas sem saber no que acreditar'(...)" (João Ubaldo Ribeiro, 1998, prólogo de "A casa dos Budas Ditosos").

Cito este prólogo porque ele antecipa o que também aconteceu comigo, ao receber um texto assinado por Drosófila Melanogaster, "assim, abrasileirado com o 's' e o acento". Mulher, 38 anos, residente em São Paulo, natural de Recife, eis abaixo o seu texto, que, tal como João Ubaldo fez, eu dedico às mulheres!


Plano-sequência

“Ele parece gay e ela é linda. Quem não conhece um casal assim? Risos.”

Foi ironizando mentalmente as “interações sociais” do Facebook que me dei conta que gostaria de ter uma amiga ao meu lado para poder comentar a última foto publicada daquela pessoa cujo telefone eu não tenho gravado no meu celular (mas que está ali na minha timeline, somehow).

Não tendo, mandei pra uma amiga em forma de arroba um tweet (provavelmente a mais solitária das interações da web).

Talvez tenha me lembrado dessa amiga porque ela é dessas com quem as conversas são sempre tão boas a ponto de fazerem os pensamentos acelerarem de forma criativa e em ritmo suficientemente confortável para serem brindados com várias cervejas geladas a curtos intervalos de tempo. E, por isso, devo a ela um daqueles episódios da vida real que, quando acabam, te deixam com a sensação de que virariam uma boa história. Interessante, ao menos. Neste caso, virou texto. Um texto que talvez eu passasse para ela publicar.

Com a expectativa de um “talvez-dê-certo”, elas foram se encontrar. Ambas disputaram aquele espaço nas agendas como quem exige um direito adquirido. Elas se conheciam há quase uma década, mas se encontraram pessoalmente uma só vez; as interações se limitavam à coincidências virtuais e as fotos 3x4 dos perfis atualizavam as memórias.

Mas, incrivelmente, a relação ali era intensa, curiosa, coesa. Elas tinham tanto a ver uma com a outra e, de um jeito único e peculiar, se amavam. Era gostoso dividir aquele pedacinho afetivo com alguém que já encheu tantas linhas nos tempos em que se escreviam cartas.

Pensando agora, estar associada ao sentimento quase indescritível de receber uma carta é (t)denso. Quase uma covardia com as futuras namoradas, que começam em ilusória desvantagem no amor.

Então veio o segundo encontro e as duas, por alguns segundos, foram adolescentes de novo. A ansiedade tomou conta e todo o conjunto de mão-suando/frio-na-barriga apareceu. O beijo, o sexo, os sorrisos, tudo devidamente visto e revisto, tal como um encontro após anos exige.

Cansadas com o intenso e delicioso protocolo, resolveram se dar alguns minutos de privacidade para o banho. Ela, aproveitando a solidão que àquela hora lhe era muito bem vinda, se deixou observar a casa da outra, com a mesma curiosidade de quem vasculha o álbum de fotos daquele nosso amigo do primeiro parágrafo.

Ela notava cada detalhe e, fazendo jus à criticidade feminina e ao irresistível impulso humano da interpretação, criava hábitos e definia estilos para a outra a partir do que então considerava fragmentos de personalidade espalhados pela pia, pelo box, refletidos nas cores e formatos dos tapetes.

Convicta, formava opiniões sobre a outra. Deu-se conta de como comparava a sua vida com aquela que estaticamente lhe mirava ao notar a embalagem do shampoo disposto na prateleira. “Blast”.

“Shampoo Blast”, a formadora de opiniões repetiu pra si em voz alta, com certo ar de desdém, talvez porque soubesse que aquele jamais teria sido a sua escolha de compra no supermercado.

Neste momento a imaginação ficou offline e a triste constatação de que aquele vidro de shampoo era muito mais do que simplesmente “desconhecido” ou “meio chinfrim” tomou conta dos pensamentos e do banheiro. Diferentemente do vapor da água quente, ela não esvaía pelos vãos da janela.

Aquele shampoo se tornou a prova incontestável de que aquele encontro obedeceria à lógica do início-meio-e-fim, sem qualquer pretensão romântica, sem clima “meant to be” que ambas acumularam naqueles anos todos de conhecimento mútuo.

Ela, a observadora, queria alguém que fizesse melhores escolhas (em tudo e sobre tudo), que se amasse explicitamente, que tivesse orgulho da sua própria feminilidade e que não subjulgasse o conceito de autoestima. E, por um infortúnio do destino, aquele shampoo parecia não dizer isso sobre a outra. “Eduardo e Mônica”, pensava ela, “só que sem o final feliz”.

Sem se importar com a possível crueldade implícita naquele pensamento, ela só pensou em sair do banho o mais rapidamente possível. E respirou aliviada ao pensar que o seu voo partiria cedíssimo no dia seguinte, deixando-as com pouco mais de uma noite juntas.

Com os cintos de segurança já afivelados para a decolagem, o fim de semana lhe veio em uma sequência de fotografias à mente. Como que as guardando em um arquivo mental, ela concluía em silêncio que, definitivamente, era mais seguro interpretar o álbum de fotos alheio.


sexta-feira, 6 de julho de 2012

Haikais verdadeiros ou depois da visita de Alice (Ruiz)



1 - Céu refletido
      no rio embutido
      na fresta da rocha



2- No infinito verde
    O ipê ao longe
    Fez-se perto em flores